Esporte

19/05/2017 10:20

Perda de peso, igreja e zero álcool: Cássio revela motivos para virada no Corinthians

A virada de Cássio depois de sua pior fase em seis anos de Corinthians começou quando ele começou a reconhecer os próprios erros. Acima do peso, sem confiança e com uma história de quase 300 jogos pelo clube a zelar, o goleiro encarou o início de 2017 como um período decisivo para sua recuperação física e técnica. Deu certo.

 

Depois de inúmeros problemas em 2016, Cássio começou a temporada com seis quilos a menos e dentro de sua forma ideal. Em campo, as coisas começaram a fluir com boas atuações, a volta da segurança debaixo das traves e a expectativa de ser convocado para a seleção brasileira – os próximos amistosos são em junho, contra Argentina e Austrália, com lista a ser anunciada nesta sexta.

Com a confiança de volta, Cássio se vê, sim, como um dos candidatos às três vagas de goleiro a serem preenchidas pelo técnico Tite.

– Sem desmerecer ninguém ou ter soberba, sempre tive um bom destaque quando estive bem, participações em títulos, tudo. O futebol brasileiro tem grandes goleiros. Se for ver pelo histórico ou pelo momento, acredito que sim (é um dos melhores) – disse Cássio.

Prestes a completar 30 anos (dia 6 de junho), Cássio atingiu a maturidade. Fora de campo, a família também contribuiu. Com alimentação balanceada e longe do álcool há alguns meses, Cássio passou a ter vida regrada. Muito por causa de sua noiva, Janara. Ao lado dela, largou a bebida e, depois de um convite do zagueiro Vilson, passou a frequentar a igreja Voz da Verdade, em Alphaville, perto de onde mora.

 
 

Dos seis títulos como titular do Corinthians, esse foi seu primeiro como capitão. Foi diferente? Bateu uma ansiedade antes do fim do jogo contra a Ponte?
Cássio:
Foi, foi bem diferente. Nos cinco, dez minutos finais, bateu uma ansiedade, sim. Comecei a lembrar dos momentos que passei no Corinthians, títulos, vitórias, a carreira do jogador não é feita só de vitórias, também de derrotas. Passou um filme. Fiquei muito feliz por ser campeão novamente, campeão na arena e ter o privilégio de erguer uma taça num clube tão vitorioso quanto o Corinthians.

O que mudou para você retomar a boa fase nesse ano?
Comecei a colocar as coisas na balança, em casa, com minha família, minha noiva. Começamos a pensar e rever coisas positivas e negativas do ano passado. Eu tinha que pensar o que queria para esse ano. Traçamos uma meta de aproveitar as férias, deixar um pouco de lado o futebol, curtir, mas depois me preparar. O time se reapresentou no dia 11 de janeiro. Até o dia 1º consegui curtir minhas férias, e depois disso comecei a fazer um trabalho para voltar bem fisicamente, um trabalho mais aeróbico.

E como você conseguiu fazer isso nas férias? Numa época de Natal, Ano Novo...
É importante ter uma família unida. Ela se revezava em vários momentos para fazer minha alimentação, meu primo ia correr, minha noiva, outro dia meu irmão. Todo mundo estava pronto para ajudar. Sempre tive auxílio de alguém nessas coisas, no Corinthians mesmo, até o Fabrício, da preparação física, passou uma série de exercícios que me ajudaram. Foi tudo programado. Não é algo que caí de paraquedas e está acontecendo. Eu me preparei. Quando fiz pré-temporadas boas, meu ano sempre foi muito bom. Hoje consegui chegar num nível bom, ficar mais leve, chegar no que você quer.

Você tem ideia de quantos quilos perdeu nessa preparação?
Acho que seis... Perdi por aí... É bem complicado porque minha família é boa de garfo, a culinária é muito boa lá. Mas a partir do momento em que comecei a fazer minha dieta, tinha a comilança do pessoal, mas me mantive focado. Quando você tem um objetivo, tem de abrir mão de algumas coisas. Abri mão, e essas coisas fazem a diferença hoje, sinto essa diferença no meu trabalho.

Você já jogou acima do peso? No que influencia em sua performance?
Sou um goleiro que depende muito da agilidade. Já joguei com alguns quilinhos acima, já joguei bem. Mas no próximo jogo você não sabe se vai dar sequência. Bem fisicamente, você consegue chegar em todas as bolas. Quando eu estava lá no Mundial, tinha problemas de peso. A gente só treinava e comia, então tive de me cuidar mais. Todo jogador joga um pouquinho acima do peso, porque, normalmente, na véspera do jogo você acaba se alimentando um pouquinho mais para aguentar o ritmo do jogo. Ano passado, eu não consegui controlar tanto o peso.

Por quê?
Não digo que eu estava decepcionado. Pode ser, ou triste... A cabeça do jogador é que controla. Qualquer pessoa, quando está com a cabeça boa, acaba fazendo as coisas. Sempre me dediquei nos treinos, mas o que acontece fora de campo é muito importante. Faz muita diferença. No Japão, eu fazia tudo certinho, conseguia ter esse controle. Quando a cabeça não está boa, você acaba se descuidando aqui e ali.

Álcool também faz parte desse contexto? Você chegou a usar como escape?
Beber acho que não, mas hoje já não bebo mais nada de álcool, tem um tempinho que abri mão disso. Comecei a frequentar a igreja, tem um pastor que me aconselha. Acho que comecei faz uns dois meses a ir e a ter novos hábitos, isso está me fazendo muito bem. Independentemente da religião, tem de fazer o que faz feliz. E eu me sinto muito feliz. Desde que comecei a frequentar, comecei a me arrepender muito de coisas que tinha feito e demorei a perceber. Isso faz parte do amadurecimento. Para mim, está sendo um momento novo, mas estou muito feliz por tudo que está acontecendo.

Qual o papel da sua noiva nessa mudança?
Total, ela foi fundamental. Em momentos difíceis, em que eu poderia ter jogado a toalha, ela esteve comigo. É minha companheira, melhor amiga, está sempre comigo quando acordo. Sempre de pé para fazer meu café, minha dieta, minha comida. Quando estou de cabeça baixa, é muito mais fácil ter alguém ao lado. Minha recuperação hoje depois de uma perda, uma eliminação, é muito mais rápida do que antes. Tenho uma companheira para conversar, dividir as coisas.

Ela vai à igreja com você?
Ela está indo à igreja comigo. Hoje tenho uma mudança de hábito. Para mim, essas coisas que estou mudando na vida estão sendo positivas. Tenho de seguir isso. Ela é minha companheira. Às vezes, uma mulher leva você para baixo, mas, às vezes, também ajuda a crescer. Ano passado tive a perda da minha avó, sempre foi a chefe da família. Foi bem difícil, coincidiu com minha perda de posição. Demorei uns dois ou três meses para entender tudo isso e começar uma mudança. Tive essa mudança e consegui evoluir.

Vai ter casamento do Cássio em 2017?
Tem um pouquinho de pressão, ainda mais agora que a Arena Corinthians anunciou que vai ter casamento lá... Se eu fizesse isso, iam me chamar de boleirão, marqueteiro. Mas não é má ideia (risos). Vamos ver futuramente, ela é corintiana...

Alguém do Corinthians ajudou você nesse novo caminho?
O Vilson. Ele e a esposa dele, a Fabi, temos uma amizade muito boa. Começamos a conversar, não fui obrigado. Ele fez um convite, começamos a frequentar e nos sentimos muito felizes lá. Não vamos lá para brigar por religião, isso ou aquilo. Só para ler a bíblia, tentar entender um pouco mais, evoluir, fazer as coisas certas. É uma mudança positiva para mim. Já respeitava muito o Vilson, mas o respeito muito porque sempre esteve do meu lado, um cara bacana. O grupo todo tem o maior respeito por ele.

Você chegou a falar em falta de comprometimento em alguns momentos da temporada passada. O grupo de hoje é mais unido? Mais leve?
É um grupo totalmente diferente do ano passado, chegaram peças novas. Acho que hoje o grupo conversa mais. Se temos um problema, conversamos e tentamos nos ajudar. E não sou só eu falando. É o Fagner, é o Jô, o Fellipe Bastos, o Balbuena... Não fica aquele negócio em só uma pessoa. Por isso o revezamento dos capitães também é legal. Hoje, todo mundo tem voz ativa. Os meninos da base também, temos um respeito muito grande por eles. Não é porque são mais novos que não terão direito de opinar ou falar. Isso faz um grupo forte. Temos uma amizade boa, e um joga limpo com o outro. A equipe cresce com isso.

Perder a posição ano passado deixou você como? Preocupado? Chateado?
Não posso faltar com respeito com o Walter, que estava muito bem, teve a oportunidade de jogar e mereceu estar ali. Mas eu sabia que tinha perdido a posição para mim mesmo. Não tinha me cuidado nem me dedicado, e aí caí de produção. Coincidiu de ele estar bem, e eu não estar num momento tão bom. Mesmo assim, tinha convicção de que, se trabalhasse bem, tinha chances de voltar a ser o goleiro titular do Corinthians.

Quais são suas chances na seleção brasileira? Última convocação foi em 2015...
Eu estava num momento bom, porque o time estava bem naquele momento. Foi antes de sermos campeões, em outubro de 2015, tínhamos a melhor defesa, fiz um bom campeonato. Não era sempre que eu estava mal fisicamente, que fique bem claro. Ano passado que relaxei, nos outros anos não teve nada absurdo. Em 2016, em alguns momentos, acabei extrapolando. Quando perdi a posição, Tite me mostrou os números em comparação a outras temporadas. Não eram normais mesmo. O treinador que está na Seleção me conhece, sabe do que sou capaz, tenho esperança de ser convocado pelo que venho apresentando no meu clube.

Você se vê como o melhor ou um dos melhores goleiros do Brasil hoje?
Sem desmerecer ninguém ou ter soberba, sempre tive um bom destaque quando estive bem, participações em títulos, tudo. O futebol brasileiro tem grandes goleiros. Se for ver pelo histórico ou pelo momento, acredito que sim (é um dos melhores). Tem muitos goleiros, cada vez aparecem mais. Os clubes estão apostando em goleiros competentes na base. Estou em uma safra de goleiros com muita qualidade.

Quais?
O cara (ele próprio) tem uma admiração maior por alguns goleiros. Gosto muito do Diego Cavalieri (do Fluminense), para mim é um dos melhores. O Vanderlei, do Santos, vem muito bem, não é muito falado, mas muito regular, raramente falha. Marcelo Grohe, Victor... Um goleiro de respeito. Tem uma série de goleiros com muita qualidade.

Depois do título, você ainda acha que o Ronaldo é o maior goleiro da história do Corinthians?
Mantenho a opinião, acho que é o Ronaldo. Não só pelos jogos, até posso passar números de jogos, mas, pelo tempo de casa e identificação com o Corinthians, é o maior. O Corinthians é um celeiro de grandes goleiros, Dida também... O que tem mais títulos é o Julio Cesar, privilégio trabalhar com ele. São goleiros vitoriosos. Só de fazer parte do Corinthians e ganhar títulos aqui, já me sinto privilegiado.

O Corinthians briga pelo que no Brasileiro?
Conseguimos ganhar o Campeonato Paulista. Dizem que não vale muita coisa, mas para nós vale. Ganhamos todos os clássicos, isso nos deu muita confiança. O Corinthians tem uma cara, tem um estilo, sabemos como tudo funciona. Se conseguirmos encarar todo duelo como decisão, temos grandes chances de estar brigando por alguma coisa em dezembro.


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