Esporte

26/06/2018 09:47 OLHAR DIRETO

​Fotógrafo cuiabano que mora na Rússia fala das diferenças das duas últimas Copas do Mundo

O fotógrafo cuiabano Marcus Mesquita mora na Rússia já há um ano. Ele acompanhou a Copa do Mundo no Brasil e agora também trabalha na Copa da Rússia. Em entrevista ao Olhar Conceito, o cuiabano falou sobre os motivos de ter ido morar lá e sobre as diferenças entre os países, inclusive com relação à Copa do Mundo.
  
Marcos já trabalhava como fotógrafo em Cuiabá e foi morar na Rússia em junho de 2017. Ele disse que já desejava ir embora do Brasil, e depois que conheceu sua namorada, uma russa, tomou sua decisão.


“Eu estava um pouco inquieto sobre minha posição de fotografia em Cuiabá, então eu já estava procurando fazer algum trabalho que fosse fora, não só de Cuiabá, como do Brasil, pra expandir um pouco meu trabalho e ter novas experiências. Nessa indecisão de onde ir, eu acabei conhecendo minha namorada, que é russa, a conheci em Cuiabá. Nós estávamos tendo um relacionamento a distância por quase um ano, e eu via que estava inviável nossa relação a distância, resolvemos ficar juntos em um lugar e acabamos escolhendo a Rússia”.


Os dois se conheceram quando a russa veio para Cuiabá e se hospedou na casa de Marcus, por meio de um aplicativo de couchsurfing, através do qual você disponibiliza sua casa para turistas. Ele disse que a princípio ficou com receio de acabar recebendo uma avaliação negativa e não conseguir se hospedar fora do Brasil, na casa de usuários da plataforma, caso houvesse algum problema entre os dois. Mas no final, tudo acabou dando certo para o casal.


“A conheci dessa maneira e foi bem bacana, muito intenso, em questão de sentimento. A princípio achamos que não fosse funcionar. Quando fui deixá-la no aeroporto, a gente ficou se desculpando, falando 'ok foi isso, foi bacana, foi massa, você vai embora e eu fico, e depois eu vou mudar pra outro país e a gente acaba se encontrando'. Não passou dois dias e a gente começou a se falar por Skype. Ela veio pra Cuiabá e passou duas ou três semanas comigo, tirei férias e passei um mês e fui pra lá, e ficamos nessa relação, até que decidi me mudar”.
 
Hoje, o cuiabano mora na cidade de São Petesburgo, uma das sedes da Copa do Mundo de 2018. A percepção dele, comparando a Copa de 2014 com a deste ano, é que na Rússia tudo está mais organizado.


“Por exemplo, os estádios aqui já estavam todos prontos, antes mesmo da copa, enquanto no Brasil estávamos numa crise de escândalos, de que os estádios não estavam preparados, estavam com infiltração, etc. Eu posso dizer que aqui as principais obras que eles executaram para a Copa já estão praticamente em 100%. Essa foi a principal diferença que vi”.


O fotógrafo trabalhou durante a Copa do Mundo no Brasil em 2014, e agora também deve trabalhar na da Rússia, para o site UOL. Para isso ele deve montar base em Moscou.


Com relação à segurança, Marcus disse que não houve muita mudança para o evento, já que a Rússia era um país seguro. Ele ainda firma que, dos 21 países que já conheceu, a Rússia é o mais seguro.


“Aqui é tão seguro, que eu acho até estranho, porque é normal no Brasil, quando a gente caminha à noite, qualquer pessoa que se aproxime ou da uma olhada, você já fica desconfiado. Aqui muitas vezes saio com minha câmera de madrugada, e as vezes eu olho pra essa pessoa e penso que ela poderia de repente poderia fazer alguma coisa, mas na verdade ela nem está olhando pra mim. É estranho você se sentir estranho por se sentir seguro. Esses pequenos acontecimentos, como atentado terroristas, são coisas a parte, não são freqüentes. Sobre a Copa, não houve nenhuma mudança, porque aqui já é seguro, mais policiais na rua, mas nada de forma exagerada”.
Outra preocupação é com relação aos hooligans, grupos de torcedores com comportamento violento nos estádios. O cuiabano afirma que na Rússia não é muito comum encontrá-los, apesar de serem conhecidos.


“Eles são muitos famosos aqui na Rússia, porque existem até propagandas, que foram passadas antigamente, em que o próprio governo apoiava, mas na verdade eu não sei realmente como funciona isso. Mas não é fácil achar os hooligans, eu posso dizer que no Brasil é muito mais fácil achá-los. Conheci três pessoas que se consideram hooligans, mas foi porque eu estava fazendo uma matéria, mas se eu não tivesse investigado essas pessoas nem teria encontrado. Não é algo que você vê sempre, por exemplo, eu fui ver um jogo da Rússia com o Brasil em moscou e eu não vi nenhuma atitude de hooliganismo”.


Neste um ano que está morando na Rússia o cuiabano contou que não conheceu muitos brasileiros, mas eles estão por lá. Segundo ele a maioria vai por causa dos estudos ou por se relacionarem com algum russo. Em uma das ocasiões em que encontrou brasileiros, Marcus acabou esbarrando em uma cuiabana.


“Na verdade eu encontrei só um mato-grossense. Foi no jogo do Brasil contra a Rússia, em Moscou. Quando eu tava fazendo um vídeo dos brasileiros que estavam no estádio, eu acabei encontrando uma menina e perguntei de onde ela era. Ela disse que era de Cuiabá e foi muito engraçado, porque além dela ser cuiabana, ela era do mesmo bairro que eu, e hoje ela mora na mesma cidade que eu, em São Petesburgo, embora nós estivéssemos em Moscou”.


Com relação à fama dos russos, de serem um povo frio e fechado, Marcus afirmou que isto é verdade em partes. Ele disse que os russos são um povo gentil, mas desconfiado. O fotógrafo contou que teve dificuldade em fazer amizades, mas que depois que conseguiu ter intimidade com seus amigos eles se comportam como os brasileiros.


“Eles são muito, vamos dizer assim, com um pé atrás, sempre desconfiados. O que acontece é que os russos eles não dão abertura pra quem eles não conhecem. Eles são fechados sim, porque é uma questão de cultura mesmo. Mas sobre serem más pessoas, ou serem pessoas estressadas, coisas que já ouvi falar, isso não é verdade. Agora quando você acaba conhecendo um russo e vira amigo dele, ele se torna uma outra pessoa. Eu posso dizer que nesse ponto eles passam a ser brasileiros: pessoas muito abertas, amigas e sorriem a cada momento”.


O fotógrafo também contou que descobriu como é a percepção dos brasileiros para os russos. Segundo ele, apesar dos brasileiros serem um povo considerado amigável, os russos acreditam que sorrimos para qualquer coisa.


“Eles sempre dizem uma coisa que eu acho interessante, eles dizem que brasileiro tem um sorriso muito fácil, ou seja, temos um sorriso falso. A gente tem muita facilidade de sorrir e sorrimos para qualquer um e pra qualquer coisa, e muitas vezes sorrimos sem ter vontade de sorrir, enquanto eles são mais verdadeiros. Quando um russo sorri pra você, ele realmente quer sorrir pra você e muitas vezes com algum motivo, eles não dão um sorriso à toa”.


A Rússia também é conhecida pelas temperaturas extremamente baixas. Marcus disse que no auge do inverno chegou a agüentar a temperatura de -25° C. Porém, ele disse que prefere o frio, ainda mais quando se lembra do calor de 40° de Cuiabá.


“Em alguns momentos eu senti falta do sol sim, mas ao mesmo tempo, quando eu recordava que o sol de Cuiabá é tão agressivo e tão forte, a saudade logo passava. Porque não gosto muito de sol então sobre as questões climáticas não sinto tanta falta. Embora ver o sol um pouquinho é bom, porque aqui quando fica muito frio você não vê o sol e fica um clima meio depressivo”.


Apesar de gostar de morar na Rússia, Marcus conta que sente saudades de algumas coisas em Cuiabá. Além das amizades e da família, a Praça da Mandioca e alguns bares lhe fazem falta.


“Tenho saudade da Praça da Mandioca por conta da confraternização. Outra coisa é a questão de ter amigos, porque aqui na Rússia é um pouco mais difícil a questão de fazer amizades. Eu como sou brasileiro, de Cuiabá, de um povo muito aberto, eu tenho uma facilidade de fazer amizade com quem não conheço, mas aqui não depende da minha facilidade, depende da facilidade deles também. Mas também sinto falta da minha família, do bar do Cavernas, aqui na Rússia tem tudo isso e coisas até melhores, por conta da qualidade de vida, porem tem pequenas coisas que fazem falta sim”.


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