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03/07/2018 10:35 G1

Fotógrafa registra últimos momentos de avó que perdeu a memória

Os olhos sempre atentos e o sorriso constante eram algumas das características de Armelinda Canton. Matriarca de uma família de sete filhos, ela dedicou boa parte da vida aos cuidados com a casa.

Desde os 20 anos, também trabalhou, ao lado do marido, em um sítio. Aos 95 anos, a idosa não se recorda da própria história. Sua memória se tornou falha após ela desenvolver demência.

Diante desse quadro, uma neta, Emanuelle Rigoni, de 30 anos, iniciou um projeto fotográfico. Em março, a fotógrafa, que vive em Cuiabá (MT), passou oito dias convivendo intensamente com Armelinda, que morava em uma comunidade rural no interior de Palmitos (SC). Emanuelle registrou o cotidiano, os hábitos e o modo como a matriarca da família lidava com a progressiva perda de memória e com as consequências de um câncer de pele.

"Desde a infância, sempre fui próxima da minha avó e passava as férias na casa dela. Eu cresci tendo ela como um exemplo de mulher forte", relata.

Quando a demência avançou, Armelinda foi se esquecendo dos familiares. Já não reconhecia grande parte deles. A falta de memória da matriarca trouxe dificuldades para que Emanuelle conseguisse realizar o projeto.

"No primeiro dia, apenas observei a rotina dela. No segundo, ela se escondeu de mim. Mas depois, as coisas melhoraram. Eu me apresentava todos os dias, contava a minha história e conseguia acompanhá-la. No dia seguinte, tinha que fazer tudo de novo, porque ela já havia me esquecido", diz.

Nos dias em que esteve com a avó, Emanuelle conseguiu registrar mais de 600 fotos da idosa e cerca de uma hora de gravação em vídeo. Com os registros, ela acreditava ter atingido um de seus principais objetivos: acabar com a crença de que a última fase da vida de Armelinda era de extrema tristeza.

"Eu acabei vendo esse momento da vida dela com outros olhos. Percebi que pelo fato de a minha avó sempre ter pessoas ao seu redor, o ambiente ficava mais alegre. As coisas não são tão ruins como eu pensava."

Mãe, esposa e tataravó

Armelinda nasceu no município de Anta Gorda (RS), em 14 de outubro de 1922. Aos cinco anos, perdeu a mãe. O pai, um imigrante italiano, criou os filhos e os alfabetizou em sua língua nativa. Aos 16 anos, ela se casou.

Quatro anos mais tarde, já com três filhas, mudou-se com a família para um sítio, no distrito de Santa Lúcia, em Palmitos. "Quando eles chegaram, não tinha muita coisa no lugar. Eles foram construindo uma casa e plantando para sobreviver e comercializar", relata Emanuelle.

Desde que chegou à propriedade rural, Armelinda não se mudou mais. Ali, viveu toda a vida. Junto com o marido, cuidava das plantações e dos animais. "Ela era muito nova e tinha que fazer muitas coisas. A vida dela foi muito sofrida", detalha a neta. No sítio, a matriarca viu os filhos crescerem e irem embora - apenas uma ainda vive no local.

Há 23 anos, a idosa se tornou viúva. O marido morreu de cirrose hepática. Desde então, ela passou a viver com uma de suas filhas - a de número cinco - e o genro, responsáveis por cuidar dela.

Apesar de viver em uma região rural, considerada distante dos demais parentes, a matriarca costumava receber frequentes visitas de grande parte da família e também de amigos.

A idosa tinha 19 netos, 25 bisnetos e quatro tataranetos. Em datas comemorativas, a família costumava se encontrar no sítio. "Nós somos descendentes de italianos, então, sempre tivemos o costume de nos reunir, mesmo após a morte do meu avô. Desde que sou criança, a gente se reúne embaixo de uma imensa árvore de nozes, que foi plantada pela minha avó", conta Emanuelle.

Nas reuniões familiares, Armelinda não se recordava mais de ninguém. Para auxiliá-la, os parentes mostravam fotografias antigas. Muitas vezes, ela reconhecia a pessoa na imagem, como era antigamente, mas não acreditava que fosse a mesma que estava ao seu lado, conta a neta.

Doenças

A demência de Armelinda foi diagnosticada há quatro anos. No início, ela se esquecia de situações recentes, depois também passou a não se lembrar de fatos antigos, como os laços familiares. "Há quase um ano, ela perdeu praticamente toda a memória", conta Emanuelle.

Desde o avanço da doença, a idosa passou a ter dificuldades de diálogo. "Antes, ela falava dois idiomas, o italiano e o português". Já no fim da vida, conta a fotógrafa, ela já não entendia o português e precisava de alguém para traduzir.

De acordo com levantamento do Ministério da Saúde, 7,1% dos idosos com mais de 65 anos possuem demência no Brasil. Destes, 55% dos casos ocorrem em razão do mal de Alzheimer.

O psiquiatra Sérgio Nicastri, doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, explica que a demência causa perda da capacidade mental. A doença, muitas vezes, se inicia com problemas de atenção e de memória. "A pessoa vai tendo lapsos de memória, vai deixando de reconhecer os outros e começa a ter dificuldades de localização no tempo e no espaço", detalha.

O profissional relata que a doença costuma ser ocasionada por diversas mazelas. "A demência é a manifestação de algo que atinge o cérebro. A doença de Alzheimer é uma das principais causas. Mas também há outras causas, entre elas doenças cardiovasculares, infecções ou traumatismo craniano grave", diz.

Ainda há dificuldade para diagnosticar pacientes que são acometidos pelo mal. A constatação só pode ser feita com biópsia cerebral - raramente realizada. Na prática, o diagnóstico ocorre por meio da manifestação de sintomas. "Esse é um diagnóstico presuntivo, ou seja, há uma probabilidade de ser doença de Alzheimer", pontua o médico.

Ele conta que os medicamentos não impedem que o paciente passe por progressiva perda de memória. "Os remédios ajudam a melhorar o funcionamento dos circuitos cerebrais mais afetados pela doença, mas não põem o dedo na ferida do processo da doença, porque não conseguem deter sua evolução."

Além da demência e da suspeita de Alzheimer, Armelinda também tinha câncer de pele, descoberto havia 20 anos.

O projeto

Nas imagens feitas nos dias em que esteve com a avó, a fotógrafa registrou momentos como os almoços, as visitas de amigos e familiares de Armelinda, o banho e outros detalhes do cotidiano. "Eu tinha registros da minha avó bem-arrumada nas festas", conta.

A ideia para registrar o último período da vida da avó surgiu após a Emanuelle fazer um curso à distância com a fotógrafa americana Annie Leibovitz, em janeiro. "Ela falou muito sobre a fotografia documental e o desafio de fotografar alguém da nossa família, porque é muito mais difícil que fotografar um desconhecido. Como eu já tinha essa vontade de registrar imagens da minha avó, iniciei o projeto", detalha Emanuelle, que há 12 anos trabalha com fotografia.

Desde que começou a registrar as imagens da avó, a fotógrafa passou a entender melhor a vida de Armelinda. "Eu admiro muito o fato de ela nunca perder a alegria. Eu acho que lá no fundo, de certa forma, ela sentia carinho, amor e confiança por todos que estão próximos. Fico mais tranquila em saber que ela aprendeu a ser feliz", conta.


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